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ARTIGOS
Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018, 18h:40

EVERTOM ALMEIDA

As nuances da intervenção

O que se sabe sobre a intervenção federal (leia 'militar' e 'inconstitucional') pela qual o estado do Rio de Janeiro está passando é muito pouco. Ainda não há dados oficiais sobre aumento ou decréscimo no número de mortes e tiroteios, mas o que está sendo divulgado pelos próprios moradores e aplicativos de monitoramento colaborativo da segurança – como o Fogo Cruzado – é que ao menos 47 pessoas tiveram morte violenta e 250 tiroteios e disparos ocorreram desde o dia 16 de fevereiro, data em que o decreto da intervenção foi assinado por Michel Temer. Nos 10 dias anteriores, o mesmo aplicativo registrou 206 tiroteios e 36 mortes. Uma decisão tão extraordinária, que desde a promulgação da Constituição Federal em 1988 não havia sido adotada por nenhum presidente. Maquiar números da violência e abraçar o patinho feio de um dos mais importantes estados brasileiros não esconde a característica puramente eleitoreira de uma das atitudes mais perigosas adotadas por Temer. Ao baixar um decreto em que Polícias Civil, Militar e Corpo de Bombeiros estão sob a responsabilidade de um general, Michel põe mais ainda em risco toda a sociedade fluminense, principalmente os pobres, negros, moradores de periferia, marginalizados, aqueles que historicamente são rejeitados e invisibilizados como se não fossem a maioria da população. É clara a falta de estrutura por parte das polícias, onde frotas estão sucateadas e precarizadas, há incertezas que rondam o anúncio das medidas operacionais e de gestão, e como se não bastasse, há a possibilidade de mandado de buscas coletivas nas favelas cariocas. E claro, ainda existe a famigerada certeza de agentes corruptos que muito pouco ou nada se importarão com as garantias dos direitos civis. A adoção de uma 'agenda positiva' pautada num tema que é o carro-chefe de um dos principais pré-candidatos à Presidência da República – Jair Bolsonaro – só reforça o desespero de Michel Temer para angariar votos e assegurar o foro privilegiado em 2019, já que sua campanha pela reforma da Previdência não foi digerida pelos seus opositores e próprios aliados no Congresso Nacional, além deter sido taxada como vexatória perante a classe trabalhadora. Câmara dos Deputados e Senado Federal que antes protegeram Temer ao não julgá-lo pelas acusações feitas pela Procuradoria Geral da República (PGR) de corrupção passiva, obstrução de justiça e formação de quadrilha no caso JBS, agora não têm coragem de assumir o fim da aposentadoria do trabalhador brasileiro. Mas a intervenção vai muito além da aprovação da Emenda Constitucional 287/16. Ao ser noticiado pela mídia como "aquele que pôs fim à violência no Rio de Janeiro", Temer que é o presidente com a maior rejeição do mundo (!), passa a ser aceito nas camadas populares que mais sofrem e convivem com a violência. O ovo da serpente é deixado num terreno propício para sua eclosão e crescimento. Como sua demanda imediata é a presença ostensiva de policiais nas ruas, o morador que antes odiava Temer por fazê-lo trabalhar e contribuir 49 anos para poder se aposentar, agora o suporta já que, mesmo se o número de mortes e tiroteios permanecer o mesmo ou até aumentar, ele vê militares nas ruas. Esse cenário gera conforto e sensação de segurança, já que o morador médio não aguenta mais presenciar e ser assaltado nas ruas da cidade. Claro, essa decisão não tem efeitos apenas locais. Daqui a pouco deputados e senadores aliados estarão requerendo para seu estado uma intervenção da mesma natureza. Aumentando assim, o universo eleitoral que pode sentir as consequências de uma intervenção. Parece que nossos representantes se esqueceram que o Exército é treinado para a guerra e não para lidar com ocorrências cotidianas (mesmo que muitos acreditem que o Brasil esteja vivendo em uma Guerra Civil não declarada). Ou será que ao impor a presença de soldados tão perto da população civil o governo já está dando o recado de que num futuro bem próximo, antes mesmo que você se dê conta, eles farão parte da paisagem, mas dessa vez com ampla autonomia? É... Parece que o derradeiro golpe está cada vez mais próximo. * EVERTOM ALMEIDA é gestor público e especialista em gestão de cidades meireles.laura@gmail.com

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