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Cuiabá MT, Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
Azul
Sábado, 23 de Novembro de 2002, 14h:29

ENTREVISTA

Reginaldo Terra, Nem bala pára este campeão

Reginaldo Terra conta que sua família, evangélica, não permitia que ele freqüentasse uma academia

ADMAR PORTUGAL
Da Reportagem
Cansado de levar porrada nas ruas da cidade de Jussara, interior de Goiás, e de ser alvo de gozação da turma por causa do corpo todo desengonçado, Reginaldo de Souza Terra, então com 16 anos, buscou na única academia do município aulas de luta para ir à forra dos adversários. “Eu queria aprender a lutar para descontar todas as surras que levei. Até das meninas eu apanhava”. Reginaldo Terra conta que sua família, evangélica, não permitia que ele freqüentasse uma academia e foi preciso fazer exercícios às escondidas. Depois de 10 anos de academia, Reginaldo Terra é hoje um colecionador de títulos regionais, em Mato Grosso, somando um total de 62. Ele se consagrou como Bicampeão Brasileiro de Tae- Kwon – Do. Para se firmar como um atleta muito especial, Reginaldo Terra teve que superar muitas dificuldades, inclusive uma tragédia pessoal: ficou fora do tatame por quase um ano depois que levou um tiro no abdome esquerdo, ao reagir a um assalto. “Quando sofri o atentado, estava de malas prontas para disputar a seletiva para as Olimpíadas de Sidney”, lembra. Conheça a história deste atleta que deu a volta por cima e, atualmente, busca o índice olímpico e patrocínios para representar o Brasil nas Olimpíadas de 2004, em Atenas, na Grécia. AZUL – Há quanto tempo você luta tae-kwon-dô? Reginaldo Terra – Desde maio de 1986. São mais de 15 anos. AZUL – Qual foi a competição mais importante para você nesses anos de luta? Reginaldo Terra – Foi o bicampeonato brasileiro em 1998/99, em Goiânia. A conquista valeu a convocação para participar da seletiva para as Olimpíadas de Sidney. AZUL – Como foi a decisão de sair de casa e como foram os primeiros dias longe de seus pais? Reginaldo Terra – Foi uma decisão bastante difícil. Mas não tive escolha. Estava cansado de apanhar e por causa da religião de meus pais, sabia que não iriam aceitar a idéia de ver o filho numa academia. Aos 11 anos, era alto e desengonçado. Eu apanhava de todo mundo, até das meninas levava porrada. Então resolvi sair de casa e entrar numa academia. Só ouvia falar de karatê e nem sabia o que significava. Queria aprender a lutar para descontar as surras que levei de meio mundo. Nos primeiros dias, enfrentei muitas dificuldades. Eu carpia os quintais da vizinhança para pagar a academia a ganhar alguns trocados. Trabalhei duro como garimpeiro. Foi uma experiência que jamais vou esquecer, a época que trabalhei no garimpo do Araés. Trabalhava durante 24 horas direto. Fumei maconha para superar o medo e o cansaço. Eu era detonador, colocava explosivos nas pedras. Era um trabalho muito perigoso. Ganhei bastante dinheiro na época e ajudei meus pais também. AZUL – Depois dessa experiência, por onde você recomeçou a lutar e venceu as drogas? Reginaldo Terra – Não bebo e nem fumo. Recomecei em Iporá, município a cerca de 180 quilômetros de Goiânia. Tive sorte de ir na academia certa e encontrar o mestre certo, Sobrinho. O professor tinha um sermão muito bonito e sempre voltado para a não violência. Depois desse período meus pensamentos e aquela vontade de distribuir porradas foram desaparecendo e fui mudando o meu jeito de ser. AZUL – Você lembra de sua primeira competição? Reginaldo Terra – Foi a 1a Copa Goiânia em 1988. AZUL – E como foi? Reginaldo Terra – Fui muito bem. Ganhei o título de atleta revelação e até fui convidado a dar entrevista na TV local. Aliás, foi após a entrevista que meus pais ficaram sabendo que eu estava lutando. Lá na minha casa nem televisão tinha. Os vizinhos foram que me viram e convidaram meus pais a assistirem. Somente meu pai foi. Depois soube que meu pai me seguiu até a academia para ver como eram os treinamentos. Em conversa com ele, soube que ele pensava que na academia ensinava somente a brigar. Com o passar do tempo papai foi aceitando. Minha mãe foi mais difícil de aceitar, mas hoje está tudo bem. Eu sempre que os visito em Goiás sou muito bem recebido. AZUL – Depois do início em competições, o que mudou em sua vida? Reginaldo Terra – Mudou muita coisa. Em 1992 fui para Goiânia e comecei a dedicar-me em tempo integral ao tae-kwon-dô. Em 1993, faixa preta, mudei para Barra do Garças (500 quilômetros a leste de Cuiabá) com apoio do mestre Rildo Bueno da Silva. Com a ajuda dele, abri e academia Liberdade que funciona até hoje através do professor Rilmar Ribeiro, que foi meu aluno e hoje é mestre. AZUL – Você foi assaltado e baleado. Como foi? Reginaldo Terra – Quando ganhei o título brasileiro em Goiânia, fui informado que talvez seria convocado para participar da seletiva para as Olimpíadas de Sidney. Treinava sem parar. Em maio seria realizada a seletiva em Curitiba (PR). Ia viajar às 3h da madrugada, de avião, com patrocínio da Estrela da Borracha. Eu morava no bairro Bandeirantes e quase em frente da minha casa tinha um telefone público. Eu estava conversando com minha irmã (Creidmar de Souza Terra) que mora em Primavera do Leste (240 quilômetros de Cuiabá) quando fui abordado por três rapazes. “É um assalto!” Pensei na seletiva e no dinheiro. Reagi. Eles correram e eu corri atrás deles. Um deles atirou e acertou em mim. Voltei para casa e depois fui para o Pronto Socorro, que era perto e fui atendido. Fiquei internado por dois dias, fui submetido a cirurgia e levei 32 pontos. Fiquei de cama por 90 dias e sem treinar por quase dois anos. AZUL – O que motivou sua volta? Reginaldo Terra – Os mestres Jefferson e Anísio de Rondonópolis e o mestre Leonardo de Cuiabá, meus incentivadores e que acreditam em mim. AZUL - Depois que você foi baleado, já lutou novamente? Reginaldo Terra – Já e com vontade dobrada. Fui campeão Brasileiro (2001) e este ano campeão mundial em São Paulo. Agora meu objetivo é conseguir o índice olímpico para as Olimpíadas de Atenas, na Grécia, em 2004.

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