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Cuiabá MT, Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
BRASIL
Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019, 08h:50

OBITUÁRIO

Morre Lázaro Brandão, ex-presidente do Bradesco

Lázaro de Mello Brandão, ex-presidente do conselho do Bradesco, morreu na manhã desta quarta-feira, em São Paulo, aos 93 anos. Ele estava internado no hospital Edmundo Vasconcellos, após passar por uma cirurgia de diverticulite.

Durante sua trajetória de 75 anos no Bradesco, Lázaro de Mello Brandão cultivou duas qualidades caras ao banco: hábitos espartanos e decisões seguras. Costumava chegar diariamente à sede do banco, na Cidade de Deus, em Osasco, às 7 horas, o que levou outros executivos a adotarem o mesmo comportamento.

Sua jornada diária era de pelo menos 12 horas de trabalho, desde que, em 1942, entrou como escriturário na Casa Bancária Almeida & Cia, instituição que um ano depois daria origem ao Bradesco.

Era avesso a badalações e a entrevistas, mas foi sob seu comando que o Bradesco tornou-se a maior instituição financeira do país em ativos, perdendo o posto apenas em 2008 para a união entre Itaú e Unibanco.

Em nota ao mercado, em que comunica o falecimento de Brandão, o Bradesco destaca que o executivo foi um "homem de visão de futuro e inesgotável capacidade de trabalho, foi uma personalidade marcante, que influenciou a todos que com ele conviveram. Será sempre lembrado pelo talento, honradez e capacidade empreendedora." O banco diz ainda que a morte de Brandão é uma perda para todo o sistema financeiro e que "as lições que deixou certamente continuarão a influenciar positivamente as atuais e futuras gerações".

Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil, lamentou a morte de Lázaro e destacou a importância de seu legado.

“O banqueiro Lázaro Brandão foi um dos pilares na construção de uma organização contemporânea e à frente do seu tempo. Pensava em tecnologia e clientes muito antes, e, construiu uma das culturas mais sólidas de um grupo corporativo no Brasil. A ele, em nome da família Santander, deixo nosso agradecimento por ter liderado a indústria durante muito tempo e deixado um legado de valor inestimável”, disse Rial, em nota.

Lázaro Brandão nasceu em 15 de junho de 1926, na cidade paulista de Itápolis. Filho do administrador de fazendas José Porfírio Bueno Brandão e da dona de casa Anna Helena Mello, ingressou no mundo das finanças em busca de uma vida mais confortável, contou ele no depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que deu origem ao livro Lázaro de Mello Brandão, Senda de um Executivo Financeiro.

Sua ideia, entretanto, não era ficar na Almeida & Cia. Ele queria prestar concurso e entrar para os quadros do Banco do Brasil.

Mas os planos mudaram. Em dois anos, foi promovido a chefe de uma seção que ele mesmo criara: a famosa Inspetoria Geral do Bradesco, uma espécie de controladoria, que tinha a responsabilidade de cuidar de todos os procedimentos burocráticos até os gastos do banco, fazendo tudo funcionar de forma eficiente.

Ficar numa instituição privada, em vez de virar funcionário público no BB, foi sua primeira decisão certeira. Era o início de uma das carreiras mais bem-sucedidas do sistema financeiro do país.

Brandão chegou a São Paulo em 1953 para trabalhar na nova sede do banco, na Cidade de Deus, em Osasco, construída por Amador Aguiar, o mítico fundador do Bradesco. Em 1963, já era o diretor responsável pelas agências. Em 1977, diretor vice-presidente.

Degrau por degrau, ele passou por todos os departamentos do banco, como manda a tradição do Bradesco, até chegar à presidência, em 1981, cargo que exerceu até 1999.

No mesmo período, acumulou a presidência do Conselho de Administração, até renunciar em 2017, segundo se comentou à época, muito abalado pela morte de uma de suas três filhas. Brandão foi substituído por Luiz Carlos Trabuco Cappi, que era vice-presidente do colegiado e diretor-presidente do Bradesco.

Na prática, Brandão e o Bradesco nunca se separaram. Ao deixar a presidência do Conselho, aos 91 anos, ele continuou como conselheiro das sociedades controladas do Bradesco e manteve a mesma sala que ocupava anteriormente, mas sem o peso das decisões.

No dia de seu desligamento, em 10 de outubro de 2017, disse a jornalistas que foram entrevistá-lo que tinha superado a preocupação de “entrar num vazio” com a aposentadoria. O plano era se dedicar um pouco mais à família.

“ Se recriou na minha cabeça a ideia de que se desligar e ter rotatividade para o Conselho é importante”, disse na ocasião.

Para muitos, Lázaro Brandão era o sucessor natural de Amador Aguiar e foi escolhido por ele para levar adiante os valores do Bradesco: um banco “das massas”, com foco no Brasil e que valoriza seus funcionários de carreira.

Assim como Aguiar, Brandão não terminou os estudos fundamentais, mas ambos tinham qualidades como a atenção a detalhes e perspicácia. Todas as decisões do Bradesco passavam pelo crivo dos dois.

Aguiar era mais conservador e Brandão, mais aberto a mudanças. Mas o fundador do Bradesco tinha confiança total em seu braço-direito e quando ficou doente, em 1981, não hesitou em transferir o poder a seu pupilo.

Também como Aguiar, Brandão ficava feliz em promover “pratas da casa”, executivos que conheciam a cultura e os valores da organização. Para ele, era motivo de orgulho o Bradesco não ter sido engolido pelo processo de consolidação bancária pelo qual o país passou na década de 1990.

“Tivemos três presidentes no Conselho de Administração (Amador Aguiar, Brandão e Trabuco). Nosso modelo de negócio faz com que nós estejamos felizes com a possibilidade de o banco privilegiar processos sucessórios internos, preservando a cultura e a alma da organização”, disse Brandão quando decidiu sair do Conselho.

O Bradesco atuou na consolidação bancária do país como comprador de grandes instituições. Sua grande tacada foi a aquisição do Banco de Crédito Nacional (BCN), na década de 1990, o que o levou ao posto de maior banco do país em ativos, superando inclusive o Banco do Brasil.

Outra grande aquisição foi o HSBC Brasil, em 2016, comprado por US$ 5,2 bilhões, e que tinha 5 milhões de clientes. Foi sob a direção de Brandão que o “banco das massas” acabou criando uma divisão para atender grandes empresas, o chamado corporate , nos anos 2000.

Naquele período, a concorrência já tinha avançando nessa área e na segmentação de clientes. E foi também sob sua gestão, que o Bradesco teve lucros recordes. Em 1999, por exemplo, a instituição anunciou o primeiro lucro na casa do bilhão: mais precisamente R$ 1,012 bilhão.

Em 2008, quando a família Moreira Salles, do Unibanco, e os Setubal e Villela, do Itaú, decidiram se unir para criar o maior banco do país, com ativos na época de R$ 575 bilhões (superando os R$ 403,5 bilhões do Banco do Brasil e os R$ 348,4 bilhões do Bradesco), a notícia foi recebida com gosto amargo em Osasco.

Em 1972, Amador Aguiar tinha proposto a fusão das duas instituições ao embaixador Walter Moreira Salles, fundador do Unibanco. O Bradesco era o maior banco privado do país e o Unibanco, o quarto. A nova instituição seria apenas menor que o Banco do Brasil em ativos.

Mas o negócio não avançou porque acreditava-se que haveria um choque cultural entre o “banco cosmopolita” (Unibanco) e o “banco dos caipiras” (Bradesco). Anos mais tarde, já sob o comando de Brandão, as conversas voltaram, mas não prosperaram porque o Bradesco queria manter o controle do banco que resultasse da fusão, ideia que não agradava ao Unibanco.

Um raro frequentador de eventos sociais, Brandão apenas comparecia quando o encontro tinha algum objetivo profissional, como as reuniões realizadas pela Associação de Bancos do Estado de São Paulo (Assobesp), que daria origem à Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Ele teve três filhas: Sônia, Cecília e Beatriz. Nas horas de lazer, Lázaro Brandão gostava de visitar sua fazenda em Itatiba, no interior de São Paulo, na companhia da mulher, Albertina Tassinari Brandão.

Lázaro deixa a mulher, duas filhas e um neto. 


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