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CIDADES
Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2020, 15h:26

SAÚDE

Velhas doenças ainda ameaçam mais do que coronavírus

No Brasil, especialistas temem queda na atenção dada ao combate a dengue, zika, chicungunha, febre amarela e sarampo

ANA LUCIA AZEVEDO
Especial para o DIÁRIO

O pânico global em relação ao novo coronavírus pode ser grande, mas, para o Brasil, pelo menos nesse momento, muito maior é a ameaça de velhas doenças, garantem especialistas. Os vírus da dengue, da chicungunha, da febre amarela e do sarampo são aqueles que o brasileiro realmente deveria temer e contra os quais se proteger.
“Vejo com pessimismo o cenário para dengue e chicungunha, apesar dos esforços do Ministério da Saúde. Enquanto não tiver saneamento básico, as doenças do Aedes aegypti vão nos acometer”, destaca o virologista Pedro Vasconcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, que conclui: “Haverá um ano com mais casos, outros com menos, mas a tendência de crescimento será mantida”.
Marzia Puccioni-Sohler, professora da UFRJ e da UniRio, lembra que o mosquito prefere água suja, mas, se encontrar oportunidade dentro das casas, vai infestá-las também. E não adianta cuidar da casa e ter esgoto a céu aberto na porta.
A chicungunha é uma doença incapacitante, causa limitações físicas, impede muitas pessoas de trabalhar. Embora o vírus seja menos comum, a parcela dos infectados que adoece é muito maior que a da dengue, por exemplo. Estima-se que 70% dos infectados desenvolvam sintomas, que nunca são brandos e podem se prolongar por meses, às vezes por anos. E 16% dos doentes podem apresentar complicações neurológicas. Já a dengue pode levar a doenças autoimune.
“Como toda novidade, o coronavírus desperta curiosidade e prende a atenção. Mas, para o Brasil, agora, problema mesmo são as nossas doenças conhecidas, que são graves”, diz Marzia.
Para Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em saúde pública, o coronavírus é “um desafio que se soma, e as estruturas da saúde já estão fragilizadas”.
Segundo ela, para combater a dengue, por exemplo, seria necessário fazer um conjunto de ações, incluindo inquéritos sorológicos (pesquisa com uma amostra da população para saber se já teve dengue e qual tipo), além de desenvolver uma vacina, processo em que o Brasil “não está na vanguarda” pela “descontinuidade de investimentos”.
“O coronavírus vai fazer sombra [às outras doenças] porque o mundo inteiro está apavorado e é uma ameaça que vem de fora, enquanto a dengue nos é familiar. Na realidade, é quase uma competição de mau gosto entre os vírus”, afirma.
VACINAS - Apesar das campanhas, o Brasil ainda não atingiu a cobertura vacinal adequada contra a febre amarela, e o vírus tem avançado para a Região Sul. Vasconcelos observa que, enquanto não tivermos a cobertura vacinal superior a 90% da população, haverá risco de o vírus voltar a se urbanizar. O sarampo, como a febre amarela, não precisaria mais existir se as pessoas se vacinassem, acrescenta: “Quem não se vacinou e tem medo de coronavírus deveria tomar as vacinas disponíveis e se livrar de perigos bem mais imediatos. São dessas doenças virais que temos que ter mais medo no Brasil”, diz.
Rodrigo Brindeiro, professor do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a diminuição dos casos de chicungunha neste início de ano não deve soar como sinal de alívio. Embora com menos casos do que o mês passado, a dengue, em comparação com as primeiras cinco semanas de 2019, tem alta de 71% no país.
“E o número de casos deve aumentar muito em abril e maio, quando teremos calor e menos chuva. A chegada da dengue 2 preocupa porque parte da população mais jovem nunca foi exposta ao vírus e não tem imunidade. Já pessoas mais velhas, expostas aos vírus 1 e 3, correm risco de desenvolver a forma hemorrágica, muito grave”, diz Brindeiro.
O Ministério da Saúde vem alertando que, para a dengue, “2020 deve ser pior do que o ano passado”. E no Rio o risco de duas epidemias este ano, de dengue e sarampo, assombra as autoridades.
Na semana passada, o secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, fez um alerta: se as metas de vacinação contra o sarampo não forem atingidas, o estado pode ultrapassar os 10 mil casos da doença. Em 2019, a cobertura vacinal foi de 74%, a meta é ultrapassar os 95%.
Já o enfrentamento da dengue é para evitar uma epidemia tão grave como a de 2008, quando foram registrados 235.064 casos e 271 mortes:
“Com a volta do sorotipo 2, há risco de epidemia. A maior preocupação é que, normalmente, o tipo 2 evolui para casos graves”, diz o subsecretário de Vigilância em Saúde , Alexandre Chieppe.
O Ministério da Saúde deve gastar R$ 140 milhões com equipamentos de proteção individual contra o coronavírus. Também estima despender entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões por mês com a instalação de 1.000 novos leitos de UTI. Mas garante em nota que as “ações para as demais doenças não vão deixar de acontecer”.


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