NA HORA
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Cuiabá MT, Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ILUSTRADO
Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019, 17h:10

CRÔNICA

Na paz do Senhor

VALÉRIA DEL CUETO
Especial para o DIÁRIO
Eu de novo. Da Pedra do Arpoador. Olhando a rola de Ipanema, Leblon e os contornos da morraria caindo sobre o Atlântico. Coincidência ou não é quase por do sol. Aquele clássico de verão. Aguardado ainda no mar, ao som de aplausos agradecidos. É o dia seguinte a tragédia de Brumadinho. Por princípio, como costumo ser (pouco) obediente às ordens médicas, não deveria estar por esses costados. Nada de sol nem muito esforço para ajudar a debelar a inflamação pós canal dentário duplo da última quarta-feira. Um dos dentes se incomodou com o remelexo e me deixou com a cútis esticadinha sobre o inchaço na bochecha. Nada contra, se não fosse a dor latejante no local que se expande para a cabeça como um todo. O fim da ladeira foi na sexta. Quando o tédio do isolamento foi quebrado para acompanhar as incríveis notícias vindas de Brumadinho, município a 40 km de Belo Horizonte e sede do espetacular Instituto Inhotim. Quem não sabia onde fica Brumadinho certamente passou a saber depois do rompimento de uma de suas barragens, a do Córrego do Feijão, da gigante mundial do aço, a Vale, ex- do Rio Doce. Quantos milhões de metros cúbicos de rejeitos das minas de minério de ferro desceram vale a baixo, seguindo em direção ao rio Paraopeba, não sei dizer. E não sou a única. Nem onde esse material que insistem dizer que não é toxica, apesar de reconhecerem abrasiva, (como assim?) irá parar seguindo pela bacia do Rio São Francisco. Também são desencontradas as informações sobre o número de mortos soterrados sob a lama. Foi por isso que fugi. Deixei de lado as recomendações médicas e estou aqui. Diante dessa paisagem tão maravilhosa que, a cada dia manda um sinal aos seres humanos que a admiram da força e do esplendor da natureza. Vim firmar por todos os que não sabemos onde estão, nem quantos são. Vim pedir por suas famílias, amigos e colegas que, no momento, lidam lá nas minas gerais com a dor da perda, o fantasma da ignorância sobre o destino de seus entes queridos e o descaso criminoso dos responsáveis pela falta de um plano eficaz de contingência. Vim para a Ponta procurando um ponto. De equilíbrio, que me ajude a recuperar a humanidade. No caminho pela areia observava o entorno mais silenciosos que o normal. Apesar de ser um sábado de verão, em pleno mês de janeiro, tudo pareciam menos. A praia não estava tão cheia, a vibração era menor. A vida um pouco mais parada. Como em respeito ao drama que se desenrolava logo ali. Quando desci para a areia comecei a procurar a mensagem. A que sempre recebo quando venho em busca de Deus e/ou da natureza. Claro que ela veio, mas não no por do sol, o momento em que os moradores, banhistas e visitantes aplaudem e agradecem mais um dia. Não há o que agradecer. Foi entre nuvens que o dia terminou. Não sei o espírito dos que assistiam os últimos raios de sol que se escondia na linha das nuvens, bem acima do horizonte. O meu foi de recolhimento. Solidariedade e amor pelos que se foram, os que ficaram e aqueles que nunca saberemos onde estão. Que todos se reencontrem. Um dia. Na glória do Senhor... * Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série "Arpoador" do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

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