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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
A cara de Cuiabá
Sábado, 08 de Abril de 2000, 10h:17

ARTISTA - Nem morte faz Cuiabá esquecer Liu

O homem que estava por trás da relaxada Comadre Nhara era um profissional que colocava o trabalho à frente de tudo

MÍRIAM BOTELHO
Da Reportagem
Liu Arruda continua sendo o artista mato-grossense mais popular desde a década de 80. Sua galeria com quase 40 personagens permanece no imaginário coletivo, como se de repente a Comadre Nhara estivesse apenas tirando férias. Com a irreverência conquistou a massa. Foi o primeiro artista local a estrear com sucesso uma campanha publicitária (Supermercado Trento) e ser unanimidade em todas as classes sociais. Do lixeiro ao governador quem não deu uma sonora gargalhada com Ramona, Dedê, Juca, ou mesmo Xapola. A primeira apresentação aconteceu em 1968, no colégio São Gonçalo. Fez uma dublagem de “Balada para um Louco”, uma versão de Moacir Franco para a música de Astor Piazzola. A partir daí mostrou que teatro não seria apenas uma brincadeira. Nos anos 70, junto com Ivan Belém, participou do grupo de teatro do Sesi “Pequenos Gigantes”, atuando na peça Camilo Ramos Suing. Atuou em várias apresentações em escolas, entre elas “As Moreninhas”. Depois disso foi para o Rio Janeiro cursar Comunicação Social na Faculdade Gama Filho. Por necessidade financeira, buscou dinheiro nas festas de aniversário de crianças e, ainda no Rio, participou do espetáculo “Desgraças de uma Criança”, que foi seu último trabalho na universidade. Voltou para Cuiabá em 84 e permaneceu por mais dois anos fora dos palcos. Trabalhou como professor de educação artística e repórter da TV Centro América. Em 86 se juntou ao grupo Gambiarra de Ivan Belém, Meire Pedroso, Mara Ferraz, entre outros. O grupo realizava intervenções nas ruas, e em bares, sempre usando roupas coloridas. O primeiro trabalho do grupo Gambiarra foi “Avoar”, um espetáculo infantil que marca uma trajetória. Em 1999 a peça “Avoar” foi o último espetáculo apresentado por Liu Arruda, e novamente com o amigo Ivan Belém. Liu Arruda nasceu em 30 de maio de 1957, filho de Nilson Arruda e Tanita Marques de Pinho Arruda. Foi o único cuiabano da família - os outros irmãos nasceram em Corumbá - e o único a herdar da mãe o interesse pelo teatro. Quem conta essa estória é a irmã mais velha, Cleuza de Arruda. Segundo ela, Dona Tanita, desde mocinha sempre gostou de teatro e, mais tarde, de espalhar aos quatro ventos o sucesso do rebento. De acordo com a irmã, a relação do artista com a família foi se distanciando. Os familiares tornaram-se evangélicos, e Liu foi se aproximando cada vez mais dos amigos e de sua platéia. Para Cleuza a grande característica do irmão foi o profissionalismo. “Ele só fazia as coisas por inteiro”. Com Ivan Belém, o artista tomou conta da noite com as poderosas Creonice e Comadre Nhara. Uma união que emplacou de vez com o espetáculo “Elas por Eles“. “Foi com este espetáculo é que percebemos que teatro podia ser um bom negócio”, comenta Ivan Belém que também dividiu o palco em “Nossa Gente, Nossos Valores” e várias outras peças. O público tornou-se um dos componentes principais para o estilo dos atores que foram dirigidos por vários diretores, como Chico Amorim, Juarez Compertino, Maurício Leite, Oscar Ribeiro, e Meire Pedroso. A improvisação sempre foi uma das grandes qualidades do Liu, além da facilidade para memorizar rapidamente, relembra Ivan, que também esteve junto em “Cuiabá Digoreste”, texto de Chico Amorim, que tratava com irreverência e bom humor o modo de falar cuiabano. “Durante esse período de convivência, muitas vezes ficamos de mal, mas acabávamos fazendo as pazes. Ele aprontava com os amigos, mas ninguém conseguia ficar com raiva das suas brincadeiras”. Para Ivan, Liu Arruda provou que santo de casa também faz milagres. ”Ganhamos dinheiro com os espetáculos e o apoio da platéia com nossas apresentações”. “Cidade Pedra Lascada” marca o encontro com o amigo Chico Amorim. A partir daí, políticos, e dondocas passaram a ser matéria prima da parceria. De acordo com Chico Amorim, as produções sempre foram rápidas. “Em 10 dias montávamos um espetáculo. Escolhíamos alguns personagens e os principais acontecimentos. A partir daí montávamos os quadros”. Chico foi o responsável por algumas mudanças na galeria de personagens. Foi dele a idéia do casamento entre Comadre Nhara e Juca, que resultou nos irreverentes filhos: Ramona e Gladstone. Para Amorim, um dos melhores espetáculos da dupla foi “Aniversário da Comadre Nhara”, apresentada na Escola Técnica Federal em 1991, e com grande repercussão entre o público. Em mais de 25 anos de carreira e um sem número de apresentações teatrais, Liu ainda participou da novela “O Campeão”, da Rede Bandeirantes, e teve participação no especial “A Lenda”, apresentado pela TV Manchete. Manteve colunas em jornais e espetáculos que tiveram temporadas de quase um mês de casa lotada. Além de ter lançado o CD “Ocê qué vê, escuta”, com catorze faixas, sete músicas e sete piadas. Gostava de dizer para os amigos: “Não caí de pára-quedas na escalada de sucesso. Tenho credibilidade junto ao público porque sou sério. Quem faz humor sem seriedade perde a sua platéia”. Liu Arruda morreu no dia 24 de outubro de 1999. Na memória coletiva deixa a marca de alegria, vontade de viver, e, principalmente, de amor à arte, e à sua terra natal.

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