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Cuiabá MT, Sábado, 16 de Fevereiro de 2019

A cara de Cuiabá
Sábado, 08 de Abril de 2000, 10h:03

RUA - Marcos da história e do dia-a-dia

Avenida da Prainha e Praça da República estão marcadas na memória da população talvez mais pelo cotidiano, diz estudioso

RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Os mais jovens talvez não façam idéia, mas, debaixo das toneladas de asfalto e concreto que cobrem a avenida Tenente Coronel Duarte, está sepultada parte da história de Cuiabá. Sob a forma de esgoto, um córrego que já abrigou animais, grandiosos arvoredos de mata ciliar e extraordinárias lavras de ouro, hoje desce caudaloso rumo ao rio Cuiabá, esquecido pela cidade que ajudou a formar. De sua importância econômica, histórica e cultural só restou o nome, Prainha, ao qual poucos conseguem atribuir a origem ou significado, mas que virou o “apelido” oficial da avenida que é a “cara” de Cuiabá para 35,5% dos cuiabanos. Para o historiador Carlos Rosa, apesar de engolido pela cidade, tal escolha mostra que o córrego da Prainha ainda mantém ligações com o povo cuiabano. “Embora hoje tenha virado esgoto, o córrego da Prainha ainda está presente na memória social de Cuiabá, pois demarca o traçado original do seu espaço urbano. Até hoje, as ruas seguem o que era leito do córrego, no sentido norte-sul”. Segundo Rosa, o córrego é fundamental na história da cidade. “Sua margem direita é o ponto inicial da ocupação de Cuiabá. Este recurso de desenhar o espaço urbano seguindo a fonte de água mais próxima era uma concepção urbanística da época”. As agressões ao córrego não são recentes. Desde o início das atividades de garimpo em suas lavras, as águas do Prainha começaram a ser castigadas com rejeitos tóxicos. “Por conta disso, a água do córrego não era consumida. No entanto, na época das chuvas ele servia como meio de transporte até o rio Cuiabá”. Na década de 60, quando, em nome do progresso, diversos crimes contra o patrimônio histórico foram cometidos, o córrego da Prainha não escaparia ileso. “Na época do governo Pedro Pedrossian, não existia uma legislação de preservação dos recursos ambientais. Então a canalização e depois a cobertura do córrego foram feitos sem levar em conta a importância ambiental e mesmo histórica do córrego da Prainha”. Em São João Del Rey (MG), conta o historiador, um córrego também chamado de Prainha é um contraponto ao que aconteceu em Cuiabá. “Além do nome e da importância histórica, havia outras similaridades como as pontes de pedra ligando as margens. No córrego de Cuiabá, tudo isso foi destruído. Em Minas, virou atração turística”, pondera. PRAÇA DA REPÚBLICA – Perto dali, outra pedra fundamental da história de Cuiabá foi lembrada pela população. A recém-reformada Praça da República foi considerada a “cara” de Cuiabá por 31,1% dos entrevistados, confirmando uma preferência que remonta aos tempos do império. Foi nesta praça, chamada nos primórdios de Largo da Matriz, que aconteceram alguns dos principais eventos religiosos, políticos e culturais da capital. Segundo Carlos Rosa, esta praça sempre foi o coração da cidade, já que, em seu entorno, ficava o chamado quadrilátero do poder. “Naquele ponto foram concentrados a Igreja, a Cadeia Pública, a Casa do Ouvidor e o Senado da Câmara. Era o núcleo da cidade, onde tudo o que era realmente importante acontecia. Esta força simbólica permanece até hoje, mesmo com a mudança do centro de poder para o CPA. Basta ver que as grandes manifestações populares começam ali”. Para o historiador, o fato de a população optar por dois logradouros históricos não significa necessariamente uma súbita valorização do patrimônio. Para ele, a concentração dos meios públicos de transporte nesta rota é uma hipótese mais provável. “Esta escolha tem a ver com o fato de o sistema coletivo tende a convergir para estes pontos e este fluxo faz parte do cotidiano das pessoas. Isso vai fixando os pontos na memória, mesmo que a maioria não saiba direito o que eles significam para toda a cidade. De qualquer forma, é um bom indício”.

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