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ESPORTES
Quinta-feira, 23 de Maio de 2019, 10h:10

GRIEZMANN

Atleta é capa de revista gay e condena homofobia

O atacante Antoine Griezmann, 28, estampa neste mês a capa da principal revista destinada ao público LGBT na França, a "Têtu Magazine". Em entrevista ao veículo, divulgada ontem, o jogador deu fortes declarações contra a homofobia no futebol. "Já chega. A homofobia não é uma opinião, é um crime. E, agora, se um jogador disser palavras homofóbicas no campo de jogo, acho que eu pararia a partida. Isso precisa mudar", afirmou o francês. Campeão do mundo com a França na Copa de 2018, Griezmann disse, ainda, que é preciso encorajar os atletas homossexuais a assumirem a sua orientação publicamente. "Se um jogador gay deseja anunciar que é homossexual, talvez não terá todos os jogadores da seleção francesa a seu lado, mas eu estarei." O também atacante francês Giroud endossa a opinião de Griezmann. "É complicado, mas é assim. Eu entendo a dor e a dificuldade dos caras que assumem, é um teste real depois de anos." Nesta semana, o goleiro sul-africano Phuti Lekoloane contou à Folha de S.Paulo sobre o preconceito que sofre por ter assumido a sua homossexualidade. "Na escola, em casa, na minha comunidade. Eu era sempre ofendido e rejeitado de muitas formas. Sempre foi assim." De saída do Atlético de Madrid e em negociação com o Barcelona, segundo jornal espanhol "Marca", Griezmann defende que é preciso um trabalho em conjunto no futebol para combater a homofobia. "Os dirigentes dos clubes, da federação francesa de futebol e da liga também devem levar esse tema a sério. O futebol é um esporte bonito. Não pode ter essa imagem homofóbica", afirmou. "Nesses tempos, isso é inaceitável. Acabamos todos pagando por esta agressividade." O jogador finalizou dizendo que a sociedade também tem de agir. "Cabe a nós, os pais, educar nossos filhos para que cresçam em um mundo menos homofóbico e menos sexista." LGBT O goleiro Phuti Lekoloane, 26, não esquece sua passagem pelo JDR Stars, time semi-profissional sul-africano. Era um de seus primeiros treinos no clube, e na saída um atacante se aproximou para dizer o que pensava dele. "Ele falou que um homem que faz sexo com outro é uma pessoa tão ruim quanto um assassino", conta ele à reportagem. Lokoloane não respondeu nada. Abaixou a cabeça e foi para o vestiário. O mesmo onde, dias antes, havia sido questionado se tomaria banho e trocaria de roupa ao lado dos outros jogadores. A pergunta não o surpreendeu. "Foi discriminação que eu cresci percebendo existir. Na escola, em casa, na minha comunidade. Eu era sempre ofendido e rejeitado", diz. Hoje no Tornado FC, da quarta divisão da África do Sul e buscando o acesso, ele não gosta de ouvir que "revelou" ser homossexual ("Jamais escondi ser quem eu era"). Se conseguir a promoção, Lokoloane será uma raridade: um jogador de futebol profissional abertamente gay. Houve casos de atletas que saíram do armário apenas depois de terem abandonado o esporte, como o americano Robbie Rogers e o alemão Thomas Hitzlsperger. O inglês Justin Fashanu nunca admitiu a homossexualidade enquanto atuava, apesar de ser o segredo menos bem guardado do futebol britânico. Ele se matou aos 37 anos, em 1991, após ser acusado de abusar sexualmente de um adolescente nos Estados Unidos. Hitzlsperger fez apelo público para que jogadores gays declarassem de forma pública a sua orientação sexual. O primeiro a atender pedido foi o atacante australiano Andy Brennan, na semana passada. "Na África do Sul sempre houve muitos homossexuais, mas dentro do armário. Eles não se expõem por medo de serem discriminados. Eu fui rejeitado várias vezes, especialmente em times profissionais", lembra Lokoloane. Ele reconhece ter deixado clubes por não suportar as piadas e os comentários de dirigentes. Era uma opção que não tinha na escola, onde as surras eram diárias. O único jeito de ir ao banheiro e voltar são e salvo era pagar para um amigo acompanhá-lo. Apanhar não o fez querer mudar. Lokoloane diz que a percepção disso o deixou mais forte. Havia algo dentro dele que a violência física na escola não podia tirar. A aceitação da mãe foi imediata e ele nem precisou dizer nada. O entendimento entre os dois era claro. O pai precisou de mais tempo. Lokoloane escuta piadas ou xingamentos homofóbicos nos estádios da África do Sul, primeiro país do continente a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não poderia jamais dizer que não se importa. Sente-se ofendido, claro. Mas punir torcedores ou clubes por comportamentos discriminatórios não é uma virtude das autoridades do futebol, seja na Europa, América do Sul ou África. Ele diz aguentar tudo por um motivo. Quer ser alguém a abrir caminho para os jogadores quem vêm depois. É uma briga solitária, porque não há outros gays declarados no futebol africano. Mas Lokoloane está habituado a estar só. Ele mora em Mdanstane, na parte leste da Cidade do Cabo, atraído pela oferta de um clube mais tolerante e onde seria respeitado. "Nós temos de fazer mais agora. Temos de falar mais sobre isso. As pessoas precisam se abrir e há muito a ser feito. Há muitas coisas ainda ignoradas", afirma o jogador.


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