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Cuiabá MT, Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020
ILUSTRADO
Terça-feira, 21 de Janeiro de 2020, 08h:49

ENTREVISTA

Armando Babaioff: ‘O artista tem que ouvir as pessoas na rua’

Em evidência. Ator diz que encara seu primeiro papel grande na TV graças ao sucesso da peça “Tom na fazenda”, que volta ao Rio em fevereiro

MARIA FORTUNA
Da Agência Globo - Rio

Prestes a reestrear a premiada peça ‘Tom na fazenda’, ele produz outro espetáculo do mesmo autor, define seu vilão de ‘Bom sucesso’ como ‘cruza de Sergio Moro com Jim Carrey’, anda de metrô para ficar perto do público e revela: ‘Tenho irmãos que nunca vi e gostaria de conhecer’
Aos 5 anos, o pernambucano Armando Babaioff saiu do Nordeste rumo ao Rio numa kombi com o pai, a mãe e a irmã. Foram nove dias percorrendo o Brasil profundo, tomando banho em parada de ônibus e almoçando o que caminhoneiros ofereciam. Naquele tempo, fazia xixi na cama e, como dormia na rede pendurada sobre o pai no carro, imagina...
No Rio, o pai, advogado, ficou desempregado, e a mãe assumiu o sustento da família como costureira. Babaioff passava as tardes descosturando biquínis doados pelas vizinhas, que ela modernizava e revendia. Aos 11 anos, decidiu ser ator ao dar de cara com o teatro da escola municipal Pio X, para onde foi transferido quando a grana secou de vez. Participou de companhias amadoras — entre elas, a de uma igreja, do qual foi expulso quando descobriram que era judeu. Terminou o ensino médio técnico em construção civil (“aprendi a bater laje”), mas não desistiu do sonho. Entrou na escola de Teatro Martins Pena e formou-se na UniRio.
Aos 38 anos, é o vilão da novela das 19h, “Bom sucesso”. Caiu nas graças dos espectadores com o advogado inescrupuloso Diogo. Tanto que foram seis os pedidos de selfie durante esta entrevista de uma hora, no Parque Lage. A fama, no entanto, não o impede de pegar o metrô diariamente. É desta forma que mantém contato com o público.
Público este que desde 2017, lota a peça “Tom na fazenda”, protagonizada por ele e que volta ao cartaz em 1º de fevereiro, no Teatro Petra Gold. Ganhadora de prêmios como APCA (melhor espetáculo de 2019) e Shell (melhor ator, para Gustavo Vaz, e direção, para Rodrigo Portella), foi vista por mais de 25 mil pessoas.

P - Em 13 anos de TV (estreou em “Páginas da vida”), é a primeira vez que você faz um personagem importante, né?
BABAIOFF - Nunca tinham me dado essa chance, sempre fiz personagens periféricos. O bacana é que tanto esse convite quando o do Dennis Carvalho para “O segundo sol”, vieram por causa de “Tom na fazenda”. Essa peça mudou minha vida.

P - Como foi o trabalho de composição do Diogo?
BABAIOFF – O Luiz( Henrique Rios, diretor) disse que eu tinha uma cara de bom moço interessante para o personagem e isso me deu um norte. Faço tudo que sempre me disseram para não fazer em TV: Diogo é careteiro e canastrão. Quis fazer um mau vilão e não um bom vilão.

P - Se inspirou em alguém?
BABAIOFF – Nas novelas brasileiras. Ele é um recorte de atores do que vi na TV. Tem Carminha de Adriana Esteves, Antonio Fagundes em “O dono do mundo”. Também tem um quê mexicano de Paola Bracho, Maria do Bairro. A realidade brasileira é kitsch, melodramática. Diogo é um vilão cafona, é o pior do brasileiro. É machista e tem a coisa de não entender bem, mas achar chique usar terno sem meia porque viu na revista. Não lê, não tem interesse em cultura, vive o capitalismo babaca que o brasileiro importa do americano. Tem livre inspiração em Sergio Moro e Jim Carrey, é uma espécie de cruza dos dois. Coloco no público a responsabilidade da culpa por achá-lo engraçado. Diogo é um cidadão de bem, da tradicional família brasileira (risos).

P - Como sabe que o público gosta?
BABAIOFF – Vou de metrô à gravação todos os dias. Tento desglamourizar a profissão, principalmente por conta do que tem acontecido (ataque aos artistas). Até que a última pessoa entenda como funciona a Lei Rouanet, eu já morri. É obrigação minha mostrar que sou trabalhador como todo mundo. Nós, artistas, perdemos o contato com o povo. Vivemos uma realidade distante, sem ouvir as pessoas. Perder o contato com público é perder a essência da profissão: o material humano. No metrô, converso com a senhora que quer meter o cacete no Diogo. Quando vejo, virou um debate no vagão.

P - Qual é a importância de uma novela que fala de literatura?
BABAIOFF – A gente fala de Clarice Lispector, Walt Whitman, a Grazi lê no trem. Isso é exemplo. Tem protagonista negro (David Junior) e atriz transexual (Gabrielle Joie). As pessoas querem se ver representadas.

P - Você fez “Tom na fazenda”, que tem temática LGBT, no Canadá, terra do autor Michel Marc Bouchard, e fará temporada lá em maio. A reação do público estrangeiro é diferente?
BABAIOFF – O público entra na cabeça de cada personagem, do gay, do homofóbico, e aí é um exercício de empatia catártico. Tudo está tão banalizado no Brasil, né? A peça tem o poder de isso não é bandeira, é teatro cumprindo sua função. Governo não tem que julgara arte, nosso trabalho é trazer questionamento. Quando um personagem chama outro de “viado”, o que deveria ser agressivo no Brasil, não é. o xingamento, a homofobia é estrutural. Tivemos que ir para a violência física porque apalavra aqui já não dá mais conta. Quando levamos a peça para fora, o público fica estarrecido, entende que, se artistas brasileiros representam o texto assim, é porque a coisa tá feia. Aqui, a plateia ri quando com piada homofóbica. Lá fora, a mesma piada é recebida em silêncio, porque não é engraçado.

P - O autor curtiu sua adaptação, né? Tanto que, você vai fazer uma outra peça dele...
BABAIOFF – Quando ele nos convidou para ir ao Canadá (para o Festival Trans-Amériques, onde a peça ganhou o prêmio de melhor espetáculo estrangeiro pela Associação de Críticos de Teatro de Quebec), disse que gostaria de mostrar como a peça dele deveria ser encenada. Enlouqueceu tanto com montagem que me presenteou com outro texto dele. Disse: “Toma, os direitos são seus, quero que você produza”. Finalizei a tradução e estou produzindo. Chama-se “A estradados passos perigosos ”, eé o embrião de “Tom na fazenda ”. Falade relacionamentos familiares, de mentira... É a história de três irmãos que se encontram 15 anos depois da morte do pai, no mesmo lugar onde ele morreu.

P - Conta algo que ninguém saiba sobre você?
BABAIOFF – Tenho dois irmãos que nunca vi e gostaria muito de conhecer. Marcelo e Renato são filhos do primeiro casamento do meu pai, com quem não falam há 38 anos. Já escrevi carta, liguei... Cresci ouvindo que me pareço fisicamente com um e tenho o gênio do outro. Bate uma curiosidade, né?

 


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