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Cuiabá MT, Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ILUSTRADO
Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018, 17h:57

ENGENHOS E MONJOLOS

No tempo dos engenhos, doença não era tanta e qualquer bamburro era remédio. Portas e janelas, sempre abertas ou na tranca e na tramela. Ladrão, mesmo, era pouco, não por falta do que roubar, que em todas as casas o maneirismo, utensílios, hábitos, móveis, reservas, crenças, tabus e vícios eram os mesmos e as maiores riquezas eram: a fé de Deus, a consciência tranquila e a paz de espírito, hoje tão sonhada. As pessoas levavam consigo, por onde quer que andassem, tudo o que era de valor maior, no corpo, na mente, nas algibeiras e nos picuás e, diferentemente de hoje, era muito raro encontrar pessoas dispostas que tivessem maus costumes. Mas os engenhos não eram lá grande coisa! Um espelho rudimentar, centrado por moendas denteadas e engatadas, sempre prontas para moer, o que quer que fosse, desde cana até as mãos descuidadas. Somente os pensamentos passavam incólumes pelas moedas. Estas, tinham uma paciência própria do homem do campo... Os engenhos viveram num tempo de paz e de pouca leitura, um tempo de Dante e de fartura, em que não se via enchentes, secas, máquinas e defensivos, poluição, drogas e suicídios. Porém um dia os engenhos não resistiram e viraram cidades( ou as cidades vieram aos engenhos?). Só se sabe que restou no ar aquela eterna perplexidade sertaneja, pois os engenhos, não sabendo as intenções da cidade, ficaram com os pés fincados na timidez nacional, na desconfiança e na sinceridade a toda prova! Hoje os engenhos, vez por outra olham à sua volta, mas já não veem seus próprios rastros, perdidos que estão, sem caminho, de volta. Suas moedas imóveis mastigam o silêncio. O progresso era seu destino e se instalou sem aviso prévio, cobrindo seus passos. Hoje só lhes resta um olhar de saudade por sobre os telhados dos novos tempos! Olhando ao redor, percebem que não só eles que estão se sentindo entristecidos pois, outros artefatos em madeira, como os monjolos, as gamelas e os pilões parecem obsoletos para os povos de hoje. De fato, os chegantes de outras terras ficam boquiabertos ante aparelhos estranhos de madeira lampinada, como por exemplo, os monjolos socaram até o milho virar canjica, até o café livrar das suas cascas, assim como o arroz. Os monjolos faziam a terra tremer e sacudiam o mundo, alternando gemidos e estrondos, que ecoavam nas matas, na madrugada, assombrando os medrosos. Eles imaginavam fantasmas e visões... As águas cristalinas chegavam aos monjolos tão macias e mornas, para brincar no seu cocho e quando este já estava cheio, dali elas despencavam, simulando cachoeiras fugazes. Enquanto isso, na paisagem intocada, a constante era uma só: a simplicidade simples! Do monjolo pendiam cascatas e nessas águas elas viajavam em fantasias aladas, coloridas de arco-íris, que sobrevoavam as relvas nativas. Mas na periferia da vida seres em extinção já assistiam um tempo de seca, em que alguns córregos desapareceram e as águas baixaram, os rios foram ficando rasos, com águas sujas e lentas... E então, sobre alguns monjolos e engenhos, baixou o silêncio frio da realidade; tão penoso era o desuso, que lhe doía no cerne! Chegou o tempo dos engenhos e monjolos não conseguirem se perdoar, pela única incoerência de suas existências: ter vivido sempre em paz! Mas agora já era tarde... tarde demais! JOÃO ELOY é cantor, compositor, historiador e poeta, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, médico aposentado e ex-professor da UFMT. Email: joaoeloycantor@hotmail.com

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