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ILUSTRADO
Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2018, 18h:09

LIVRO/CRÍTICA

Fragmentos mostram liberdade de César Aira

JOCA REINERS TERRON*
Da Folhapress - São Paulo
Merece celebração o empenho de editoras independentes para difundir a profusa obra de César Aira no Brasil. Em 2016, a catarinense Cultura e Barbárie lançou "Três Histórias Pringlenses", mas quase ninguém soube disso. Graças à curitibana Arte e Letra o leitor brasileiro tem o prazer secreto de ler a coletânea de ensaios "Pequeno Manual de Procedimentos", que só existe aqui. Agora, a carioca Papéis Selvagens traz "Continuação de Ideias Diversas", antes publicada no Chile em edição da UDP tão facilmente encontrável quanto a mosca branca do reino da Núbia. Em artigo recente, o crítico espanhol Jorge Carrión perguntava-se se o escritor argentino não seria melhor ensaísta do que ficcionista. É coerente a dúvida, pois as passagens mais provocativas e divertidas das "novelitas" e contos de Aira costumam ser divagações do narrador, que, em geral, têm pouco a ver com o que é narrado e muito com a pulsão ensaística do autor. São considerações sobre a própria poética, Madame de Pompadour, o cinema de Godard, arte moderna e a natureza lábil de gêneros literários como a crônica, os diários e, evidentemente, o ensaio. A liberdade do pensamento de Aira parece fluir melhor à margem, e é isto o que lembram essas notas de extensão de não mais do que meia página: continuações derivativas daquilo que era matutado no leito central de outros textos, livres associações que fugiram de sua condição ficcional e sobreviveram na margem do caderno em forma de ideias límpidas. Extravagante, Aira preserva o direito de se repetir apenas em entrevistas, e em diversas delas afirmou sua opção consciente pela clareza textual em detrimento da linguagem rebuscada, pois suas "ideias já são suficientemente complicadas". A afirmação é verdadeira, em parte. De modo sub-reptício, Aira fala malandramente de si mesmo e de sua própria poética ao resenhar, por exemplo, a maluquice das historinhas do Superman produzidas nos anos 1960. "Os quadrinhos eram uma grade perfeitamente regular, o desenho um prodígio de economia e legibilidade, e as cores, sobretudo as cores, claras, belas como um amanhecer ou como o pensamento quando se enfrenta a aventura da inteligência." Nisso, é profundamente engraçado e faz pensar na originalidade criativa como resultante da soma de influências as mais disparatadas. Dos gibis da D.C. Comics a Borges, Lautréamont e Marianne Moore, por que não? Em "Continuação de Ideias Diversas", a singular capacidade de César Aira de expressar seu pensamento encontra o seu crisol ideal. *JOCA REINERS TERRON é autor de "Noite Dentro da Noite" (Companhia das Letras)

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