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Cuiabá MT, Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ILUSTRADO
Terça-feira, 06 de Fevereiro de 2018, 18h:04

OS REVOLTOSOS CRUÉIS

JOÃO ELOY
Uma certa mulher me contou que achava ser neta de um revoltoso pois o avô relatou com pesar que, quando soube da chegada dos revoltosos, saiu no terreiro e notou que todos seus parentes já haviam fugido. Então a mãe dela, apavorada, teve a ideia de esconder-se embaixo de uma mesa da sala de refeições. Quando os invasores chegaram perceberam que a toalha da tal mesa se movia, sob os soluços e respiração da moça. Um deles levantou a toalha e se atirou sobre o corpo dela, ameaçando-a com um punhal em seu pescoço, dizendo: - Calada! Faça tudo que eu mandar, senão morre! Assim, pressionou seu corpo contra o da pobre criatura, que tremia e se lamentava, chorando de pavor e de dor... e a possuiu! Enquanto isso, os outros bandidos invadiam as dependências da casa, destruindo tudo o que encontravam ao seu alcance. O revoltoso estuprador, percebendo que a mulher ainda era virgem, pelo volume de sangue que observara ao se afastar dela, teve pena. Virou para o lado, acendeu um cigarro e, saciado, arrancou do bolso uma correntinha de ouro, colocando-a nas mãos de sua vítima, falando: - Isto é para você. Não fique triste, o tempo ajeita tudo, colocando as coisas em seus devidos lugares. Ato contínuo retirou-se, juntando-se a seus companheiros, que fugiam numa desabalada carreira, enquanto a poeira vermelha levantada pelas patas dos cavalos, mascarava as manchas de sangue e as malfeitorias deixadas para trás. Dali a nove meses uma menina nasceu, mas o segredo ficou guardado a sete chaves até o final da vida da sua mãe, só sendo revelado pelo avô, após a morte da filha. Também me foi narrado um episódio que comprovava a malvadeza dos revoltosos. Um tipo bastante popular daquela época, baixinho, negro, desdentado e papudo, que tinha como nome Mané Demétrio (nome fictício) e se fazia presente em todos os lugares ao mesmo tempo, foi pego de surpresa no meio de sua roça, com a chegada do bando invasor. Mais que depressa subiu num pé de bocaiuva, lá se escondendo entre os cachos da fruta, onde permaneceu o mais imóvel possível. Porém, alguns frutos caíram, espantando os cavalos dos inimigos. Então seu esconderijo foi descoberto. Estes apontaram suas armas para o pobre homem, exclamando: - Companheiros, algo se moveu ali no alto. Não sei se bicho ou gente, mas parece muito feio e escuro. De qualquer modo, vamos atirar para ver o que acontece. Deram alguns tiros no rumo do barulho. Apavorado e já urinando nas calças, de tanto pavor, Mané Demétrio gritou: - Não atirem, eu também sou filho de Deus, não sou bicho, sou gente. Esse que está aqui “é eu!” Prometo fazer tudo que ordenarem! Ante as gargalhadas estrondosas dos revoltosos, o lavrador desceu da bocaiuveira, trêmulo de medo. Os homens cruéis se dirigiram a ele, em tom de zombaria: - Só há um meio de pouparmos sua vida, criatura esquisita. Você terá que nos indicar quem, nesta aldeia, tem joias ou dinheiro guardado. Para salvar sua pele, Mané revelou um dos maiores segredos daquele povo: os velhos guardavam fortunas embaixo dos colchões e também em baús de couro. E as mulheres cavavam um pequeno buraco na terra sob suas camas, onde enterravam suas joias. Algumas usavam os “santos de pau oco” com o mesmo objetivo, ali escondendo pepitas de ouro e alguns xibios. A desgraça estava feita. Depois de revelar segredos tão bem guardados, o Mané saiu correndo desabalado pelo cerrado, sumindo das vistas de todos, movido por um enorme sentimento de culpa! Ninguém nunca mais ouviu falar dele ... JOÃO ELOY é cantor, compositor, historiador e poeta, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, médico aposentado e ex-professor da UFMT. E-mail: joaoeloycantor@hotmail.com

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