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Cuiabá MT, Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018, 18h:01

MÚSICA

Paixão pelo violão une Brasil e Rússia

Em ano de Copa, músicos traçam origens do violão de sete cordas, elo perdido entre Brasil e Rússia

JAN NIKLAS
Especial para o DIÁRIO
O Brasil começa a se preparar para ir à Rússia em junho, celebrando o futebol durante a Copa do Mundo. Reza a lenda, no entanto, que há mais de um século foram os russos que vieram pra cá deixando as sementes para o nascimento de outra paixão em comum: o violão de sete cordas, espécie de elo perdido entre culturas tão distintas quanto a daquele país e a brasileira. Entre valsas, polcas, choros e sambas, a força de um mesmo instrumento foi importante na criação de duas grandes tradições musicais. Não há uma história oficial sobre a origem do sete-cordas, instrumento fundamental na construção da linguagem do choro e do samba, mas sabe-se que ele não nasceu no Brasil. Músicos e estudiosos daqui acreditam que ele pode ter chegado na bagagem de ciganos russos, que habitavam o Rio no começo do século XX. É o que diz, por exemplo, o violonista e pesquisador Luís Filipe de Lima, um dos primeiros a resgatar esta história. Ele conta que um dos biógrafos de Pixinguinha, Arthur de Oliveira, conviveu com as primeiras gerações do choro e do samba, e teria iniciado o relato que hoje é difundido entre os interessados nas origens da música brasileira: "As áreas do Centro, como o Catumbi e o Campo de Santana, eram povoadas por diversos povos ciganos, entre eles os russos. Eles eram muito musicais e faziam vários bailes", conta o músico, que toca sete-cordas nas noites cariocas desde a década de 1990. Segundo Luís Filipe, a paixão pelo novo instrumento teria começado quando Pixinguinha e sua turma viram esses ciganos tocando um violão que tinha uma corda a mais do que o de seis, de origem ibérica, que eles usavam tradicionalmente em suas rodas de choro. Os grandes nomes do instrumento de então (como China, irmão de Pixinguinha, e Tute) passaram a adotar a sétima corda para acompanhar melhor os instrumentos de sopro. O pesquisador lembra que aquele modo de tocar passou a se chamar “violão martelo”, devido à marcação dada nos tempos fortes dos compassos. TOCADO PELA FAMÍLIA DO CZAR Em 2015, o violonista Yamandu Costa foi à Rússia investigar essa possível origem do violão de sete cordas. O resultado foi registrado no documentário “Sete vidas em sete cordas”, dirigido por Pablo Francischelli. Numa das cenas do episódio “Herança russa”, o violonista Vladimir Markuchevich, importante nome do instrumento por lá, afirma que a história dos ciganos conterrâneos avistados pela turma brasileira pode realmente ter acontecido. "Nós tivemos a Revolução Comunista de 1917. Foi uma guerra civil que provocou uma grande migração para a Argentina e o Brasil", contou Markuchevich. Anastasia Bardina, outra grande instrumentista do país, faz coro à explicação do colega de cordas. "Havia repressão, muitas pessoas fugiram. Então eles devem ter levado o violão de sete cordas russo, que no Brasil se transformou com a cultura local", disse. Em entrevista por e-mail , um dos grandes expoentes do violão na Rússia, Vladimir Sumin, conta que por lá a origem do instrumento também não tem uma versão precisa. Ele teria vindo da Polônia, mas se desenvolveu de forma decisiva no país, a partir da figura de Andrey Sychra (1773–1850). Harpista de renome na época, ele se apaixonou pelo sete-cordas e passou a dedicar sua vida apenas a ele. "Além de publicar obras originais, Sychra adaptou óperas e canções clássicas para o violão, iniciando a tradição do sete-cordas em nosso país", afirmou. Segundo Sumin, durante a primeira fase do desenvolvimento do instrumento na Rússia, ele acabou se difundindo apenas nos altos círculos da sociedade, sendo tocado pela família do czar. Ao longo do século XIX, o instrumento tornou-se mais acessível e foi amplamente difundido entre a população. Sua última grande revolução veio através do virtuose Sergei Orekhov, na década de 1960, que criou a linguagem moderna e consolidou a forma solista de se tocar no país. Atualmente, no entanto, Sumin lamenta que cada vez menos jovens se interessem pelo seu universo. Mas garante que a música de seu país é a perfeita expressão desse instrumento musical. "Os gêneros líricos e sentimentais da canção russa traduzem a essência do violão de sete cordas", disse. 'BAIXARIA' NACIONAL A partir de tradições tão distintas, Yamandu Costa chama atenção para as trajetórias “exatamente opostas” do violão de sete cordas no Brasil e na Rússia. Por lá, diz o violonista, o instrumento nasceu no berço da aristocracia, enquanto por aqui se difundiu pelas margens, no seio da cultura popular urbana que florescia no Rio. Se hoje ele vive seu declínio na Rússia, por aqui ele é cada vez mais tocado e procurado por jovens: "É o futuro do violão no Brasil", assegura. Enquanto o sete-cordas de lá é instrumento solista e para concertos, por aqui ele se desenvolveu como instrumento de apoio. E foi nessa função de acompanhante, dizem os estudiosos, que a tradição brasileira criou a grande revolução na linguagem: o contraponto, ou as famosas “baixarias”. Entre a própria turma do Pixinguinha e outros músicos da época surgiram as primeiras tentativas de reproduzir, nas cordas, os instrumentos graves de sopro, como a tuba e o bombardino. Os violonistas passaram a tentar imitar os contracantos feitos pelos metais, responsáveis por preencher os espaços vazios das músicas. Como se fossem “respostas” às “perguntas” da melodia. Porém, quem realmente mudaria o curso do sete-cortas, inventando as técnicas e caminhos harmônicos (“que deixam os russos loucos”, segundo Yamandu), foi o músico que passaria a carregar no nome seu instrumento de trabalho: Dino Sete Cordas (1918-2006). "Foi a partir da forma com que ele fazia contrapontos que se iniciou a incrível linguagem brasileira", disse. Yamandu reforça que, se hoje o Brasil está ao lado da Rússia como a grande escola do violão de sete cordas no mundo, muito se deve a Horondino José da Silva (nome de batismo de Dino). Foi ele que transformou o “violão-martelo” em um instrumento que passou a abrir possibilidades sonoras inéditas. "Caminhando pela região grave do violão, as frases que antes batiam na parede da sexta corda passaram a sambar livremente pela sétima, multiplicando possibilidades rítmicas, harmônicas e melódicas", ensina o músico.

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