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Quinta-feira, 01 de Fevereiro de 2018, 18h:17

CINEMA

Quando sequestro vira um negócio como outro qualquer

Em “Todo Dinheiro do Mundo”, enquanto a mãe (Michelle Williams) do menino sequestrado tenta convencer seu avô a pagar o resgate, Paul Getty (Christopher Plummer) mostra seu lado mais frio, guiado apenas pelo dinheiro

GIOVANNI RIZZO
Do Observatório do Cinema
Se faz necessário olhar para Todo o Dinheiro do Mundo e distanciar-se de tudo que ocorreu em seus bastidores, o afastamento de Kevin Spacey e as refilmagens relâmpago com Christopher Plumer, algo que claramente elevou a obra a outro patamar por suas decisões fora de tela. Nesse contexto chega até ser difícil separar as coisas, tentar enxergar as qualidades do filme por causa de uma boa intenção, ou nem tão boa assim, mas uma forma de salvar um filme com uma série de grandes pretensões. Fica ainda mais necessário separar esse contexto e entender qual filme existe por trás desse marketing instantâneo e como ele dialoga, se é que há um diálogo no longa de Ridley Scott. Todo o Dinheiro do Mundo traça planos e estratégias bem próprias de um filme que almeja um certificado de importância, começando pelo carimbo de relevância no início do filme, o famoso “baseado em fatos reais”, colocando a ficção nesse lugar de contato com real, por isso distante de um mero espetáculo, uma obra que diz, ou pelo menos tenta dizer sobre a realidade. Outra questão fundamental dentro de Todo o Dinheiro do Mundo é o thriller que tenta dar tom e ritmo ao filme, estilo ou gênero bastante presente na filmografia de Ridley Scott. Talvez esses dois pontos podem muito bem funcionar, como alguns muitos exemplos já fizeram, todavia a primeira impressão é que as duas questões se rivalizam e transformar o fato real em material para o dinamismo emocionante de um suspense não é um objetivo fácil. Talvez, mais do que tentar encontrar pontos que justifiquem certa autoria no trabalho de Scott, seja mais prudente admitir que o veterano é regido por ações e filmes que funcionam numa lógica industrial, aquela que trabalha na bilheteria e, sobretudo, se sai bem nas premiações. Fato é que essa lógica faz com que Ridley Scott viva de títulos interessantes e outros que buscam apenas essa validação por parte da indústria, não é por acaso que suas obras mais interessantes são as mais distantes desse segundo ponto. Não é o caso em Todo o Dinheiro do Mundo, um filme que a todo o momento poda suas próprias ideias por esse desejo de aclamação. Assim, sente-se essa rivalidade em todos os pontos do filme. A trajetória da família Getty transforma-se nesse esquema de cooptação emocional do público via thriller de suspense combinado com elementos que colocariam uma relevância àquela narrativa, e certo senso de uma obra de alto padrão (que mereceria o Oscar), acima de um simples exemplar do gênero. Todo o Dinheiro do Mundo tenta contar a história do milionário Paul Getty (Plummer) através de um evento marcante, o sequestro de um de seus netos, o outro Paul (interpretado por outro Plummer, Charlie Plummer). Enquanto a mãe do menino, interpretado por Michelle Williams, tenta atrasar os sequestradores e convencer seu avô a pagar o resgate, Paul Getty mostra seu lado mais frio, guiado apenas pelo dinheiro. Essa rivalidade é sentida nessa explanação do filme, onde o sequestro representa esse lado envolvente do filme de suspense, e a trajetória da família Getty tenta conferir a importância desejada à obra. Algo que o próprio longa parece não saber o que é mais importante, freando por completo as pretensões tanto no thriller, quanto na biografia de um sujeito importante. É esse sentimento de indecisão que faz o filme ter uma narrativa totalmente travada, que não flui em suas próprias pretensões, evitando que haja realmente um claro diálogo com o público a respeito do que é importante naquele emaranhado de narrativas. Assim, nessa constante troca de importância, o thriller se desenvolve de forma apressada, sem nenhum desenvolvimento em relação às emoções instigantes que o espectador deveria sentir. Sobra ao filme apenas um desejo de se fazer válido, uma vontade tão grande de agradar e estar nas mais diversas nomeações que evidencia a falta de clareza nas suas ideias. Todo o Dinheiro do Mundo passa a ser um título confuso, que não mostra realmente ao que veio, sua agradabilidade aos códigos das premiações distanciam ainda mais a narrativa de algo suficientemente sólido. O longa de Ridley Scott consegue sua relevância apenas por uma questão fora de tela, um passo que diz mais do que o próprio filme, algo que nunca é um bom sinal.

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