NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020
ILUSTRADO
Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020, 15h:20

LIVRO

Radicada na França, Bahiyyih Nakhjavani prefere imaginar como seus personagens reagi

'Verdadeira riqueza do Irã não é petróleo, mas coragem dos jovens e mulheres', diz escritora iraniana

RUAN DE SOUSA GABRIEL
Da Agência Globo - São Paulo

Desde o início do ano, quando Qassem Soleimani, comandante da Guarda Revolucionária do Irã, foi assassinado a mando do presidente americano Donald Trump, a escritora iraniana Bahiyyih Nakhjavani vem acompanhando ansiosamente as notícias. Em uma troca de e-mails com O GLOBO, Bahiyyih, que vive na França, descreveu os sentimentos que o noticiário despertou em conhecidos seus, iranianos espalhados pelo mundo: “Desespero, alegria, esperança, raiva, tudo ao mesmo tempo”.
— Os que vivem nos Estados Unidos estão compreensivelmente cansados depois de tantas crises e ameaças, embargos e acordos assinados e depois descartados — completa.
Autora de dez livros (quatro romances, quatro de não ficção e dois infantis), Bahiyyih lamenta que a maioria dos leitores conheça apenas “generalizações negativas” sobre o Irã: as dificuldades econômicas causadas pelas sanções ocidentais, os mercados coloridos e as ruas congestionadas de Teerã, as mulheres cobertas de preto, os generais mal encarados e “o regime corrupto, fanático e repressor”.
— Esses estereótipos não representam o Irã real, nem sua verdadeira riqueza, que não têm nada a ver com petróleo ou armas nucleares, mas é a coragem dos que saem das prisões com um sorriso no rosto e dos acadêmicos que encaram a História do país sem titubear. E, principalmente, da juventude e das mulheres, que se rebelam contra o véu dos estereótipos para falar o que pensam — diz a iraniana.
Embora seus leitores esperem que ela tenha “opiniões políticas” sobre tudo que acontece no Irã, Bahiyyih confessa que prefere “escapar do terror da realidade” e imaginar como os personagens criados por ela reagiriam às notícias:
— Suspeito que Goli teria um colapso nervoso. Lili ficaria dopada de remédios. E Bibi pegaria o primeiro voo para casa. Mas será que o avião conseguiria aterrissar em Teerã?
1ª pessoa do plural
Goli, Lili e Bibi são personagens do romance “Nós & eles”, publicado no fim do ano passado pela Dublinense. No livro, uma família de iranianos dispersos pelo mundo se reúne em Los Angeles para celebrar o Naw Ruz, uma festividade da fé Baha’i, uma religião surgida no Irã no século XIX.
Goli é a dona da casa. Lili é sua irmã, acusada de marxismo, que vive em Paris e fotografa mulheres nuas. Bibi é a matriarca. Ela vive a esperar notícias de Ali, seu filho, que nunca voltou da Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Como não sabe se Ali está vivo ou morto, Bibi reluta em deixar o Irã, ainda que lá sua bolsa de viúva seja assaltada por espertalhões que fingem procurar seu filho.
Alguns capítulos se afastam da família de Bibi e são narrados por “nós”, os iranianos da diáspora, que são assediados em aeroportos, temem ser deportados e não sabem lidar com as memórias trazidas na bagagem.
— Escrevo para enfatizar e forjar laços — diz Bahiyyih. — Se os livros não são capazes de resolver a situação dos refugiados ou dar documentos aos imigrantes, podem chamar atenção para esse “outro”, que é mais parecido conosco do que pensamos.
“Nós & eles” é o segundo livro de Bahiyyih editado no Brasil. O primeiro, “O alforje”, foi distribuído aos associados da clube de leitura TAG, indicado pelo bibliófilo argentino Alberto Manguel. “O alforje” acompanha um grupo de peregrinos que, viajando de Meca a Medina, enfrentam uma tempestade de areia e um ataque de bandidos. Cada capítulo é narrado do ponto de vista de um personagem — uma ladrão, uma noiva, um sacerdote e até um cadáver.
Iraniana legítima?
Bahiyyih nasceu no Irã, em 1948. Aos três anos, mudou-se com a família para Uganda, onde poderiam praticar em paz a fé Baha’i, que é perseguida em seu país natal. Uma das minorias religiosas no país, os baha’is pregam que todas as religiões, cada uma a seu modo, expressam uma mesma verdade. A constituição islâmica do Irã reconhece o cristianismo e o judaísmo, mas não a fé Baha’i.
Por suas crenças, antepassados de Bahiyyih foram presos e forçados a se exilar no Império Otomano e na Palestina. Apesar de não se considerar uma exilada, pois seus pais deixaram o país por vontade própria, ela sabe que teria problemas se pusesse os pés no Irã, onde seus livros não são publicados.
Só voltou ao país uma vez, em 1967, 12 anos antes da revolução que instituiu a teocracia islâmica. Educada em inglês, no Reino Unido, Bahiyyih fala e entende farsi, mas não aprendeu a ler e escrever na língua dos persas.
— Sou analfabeta em minha língua materna e precisaria esconder que sou baha’i para ter passaporte do Irã. Ainda sou uma iraniana legítima? — questiona. — Para alguns, o Irã ainda é um império glorioso, onde, inclusive, as universidades estão cheias de mulheres. Para outros, é um Estado corrupto e disfuncional, onde esposas não podem viajar para o exterior sem autorização do marido. Há múltiplas maneiras de definir o Irã. Mas a única coisa que nós, iranianos, temos em comum, são nossas contradições.

"Nós & eles"
Autora: Bahiyyih Nakhjavani
Tradução: Natalia Borges Polesso
Editora: Dublinense
Páginas: 304
Preço: R$ 49,90

"O alforje"
Autora: Bahiyyih Nakhjavani
Tradução: Rubens Figueiredo
Editora: Dublinense
Páginas: 256
Preço: R$ 49,90


Comentários







Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site. Clique aqui para denunciar um comentário.



ENQUETE
A quem interessa a rixa entre o governador Mauro Mendes e o prefeito Emanuel Pinheiro?
Ao governador do Estado
Ao prefeito da Capital
Aos grupos políticos que miram as eleições de 2020
Isso só prejudica a população em geral
PARCIAL