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ILUSTRADO
Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018, 18h:02

FESTIVAL DE BERLIM

Saia-justa com assédio e fracasso francês na Berlinale

GUILHERME GENESTRETI
Da Folhapress - Berlim, Alemanha
Acusações de assédio, sombras de Putin, fracassos franceses e faroestes desconstruídos marcaram o fim de semana no Festival de Berlim, uma das mais importantes mostras de cinema, que vai até o próximo sábado (24). Os ecos do movimento #MeToo permearam a passagem do diretor sul-coreano Kim Ki-duk pela capital alemã, onde ele apresentou seu recente Human, Space, Time and Human. O filme já é um prato cheio aos críticos que chamam o cineasta de misógino, graças às suas cenas de estupro coletivo. Mas agora a Justiça também o acusa. Kim foi condenado a pagar uma multa por ter cometido abusos físicos contra uma atriz do filme "Moebius" (2013). Também foi acusado de assédio sexual contra ela, mas essas queixas não foram acolhidas. Em conversa com a imprensa em Berlim, o assunto veio à tona já na primeira pergunta. "Já me expliquei à Justiça", disse o sul-coreano. "O promotor achou que foi problemático ter estapeado uma atriz. Estávamos ensaiando". A mostra alemã também saiu chamuscada do episódio. A vítima chamou o evento de hipócrita por ter escalado Kim numa edição em que encampa a campanha do "MeToo". A resposta do festival é que trata-se de uma plataforma de debate. A organização da mostra também se vê num embate com os próprios cineastas de seu país. Esta será a última edição capitaneada por Dieter Kosslick, no posto desde 2001 e grande responsável por ter dado um tom mais politizado ao festival enquanto congêneres como Cannes e Veneza se abriram mais para Hollywood. Diretores alemães como Fatih Akin ("Em Pedaços") e Maren Ade ("Toni Erdmann") assinaram um manifesto pedindo mais transparência na forma de escolha dos filmes e que a seleção esteja mais à altura dos demais festivais. O documento foi encarado como crítica a Kosslick. Tanto Akin quanto Ade escolheram que seus últimos filmes estreassem em Cannes. O tema foi abordado na entrevista coletiva concedida pelo diretor alemão Christian Petzold, que concorre ao Urso de Ouro neste ano por "Transit", história sobre um homem que precisa fugir de Paris durante a ocupação nazista e, para isso, assume a identidade de outra pessoa. Também na competição, os títulos franceses ficaram bem aquém do esperado. "Eva", thriller psicológico envolvendo uma prostituta manipuladora (Isabelle Huppert) e um impostor (Gaspard Ulliel) naufragou como o título mais criticado. Já "La Prière", de Cédric Kahn, história sobre um grupo de ex-drogados acolhidos num centro cristão ao pé dos Alpes, gerou confusão por sua abordagem algo positiva do poder da prece vindo de um país com tradição tão secular como a França. "Me fascina a ideia de que tanto as drogas quanto a religião podem levar ao êxtase", disse o diretor. A Berlinale também foi sede de duas tentativas de desconstruir o gênero do faroeste. Estilo por excelência do cinema americano, ele é encampado de forma pouco ortodoxa em "Damsel", dos irmãos David e Nathan Zellner, e "Black 47", de Lance Daly. O primeiro faz um recorte feminista do western, invertendo papéis e quebrando as expectativas do público. Nele, Robert Pattinson vive um sujeito atrapalhado que parte para o oeste com o objetivo de resgatar a noiva sequestrada. "Nos faroestes, as mulheres sempre são representadas como desejo ou objeto decorativo", disse David Zellner em conversa com a imprensa. "Mas nós queríamos trazer mais complexidade". Já o outro transporta as convenções do gênero para o cenário da Irlanda durante a década de 1840, quando o país foi devastado por uma grande fome que ceifou a vida de um quarto da população e obrigou outra porção a migrar para os Estados Unidos. É nesse ambiente desolado que um ex-soldado regressa e resolve encampar vingança sobretudo contra os ingleses, que dominam aquelas terras e são grandes responsáveis pela miséria local. "Sempre fui intrigado com o fato de nunca terem feito um faroeste com esses elementos", disse o irlandês Daly. Na competição pelo Urso de Ouro, o russo " Dovlatov" recua aos anos 1970 para falar de censura às artes e parece trazer os ecos autoritários do país dos dias de hoje. O diretor Aleksey German ficcionaliza seis dias na vida do escritor Sergei Dovlatov, morto em 1990. Como o autor não quer escrever loas ao homem soviético (diz que não há "seriedade ou sinceridade nas obras oficiais"), torna-se um pária e não consegue publicar seus próprios escritos. O jeito é continuar como repórter em um jornal operário e escrever, com entusiasmo e sem ironias, sobre inaugurações de fábricas em que operários se fantasiam de escritores russos e comemoram os feitos soviéticos.

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