Diario de Cuiabá

Sexta-feira, 17 de Maio de 2019, 01h:50

Surdo, ex-reserva de Casagrande acha refúgio na música

TONI ASSIS
Da Folhapress – São Paulo

No início dos anos 1980, Julio César era um promissor ponta direita que dividia o gramado com Sócrates, Wladimir e Casagrande, no auge da democracia corintiana. Hoje, aos 55 anos, ele está completamente surdo.

O ex-jogador, que defendeu, além de Corinthians, o Palmeiras e o Royal Antwerp (BEL), entre outros clubes, viu sua vida tomar um rumo inesperado logo encerrada a carreira, aos 29 anos. Uma otosclerose aguda - processo de calcificação dos ossos responsáveis pela audição - resultou em uma surdez progressiva. Em cinco anos, ele não escutava mais nada.

Após os sintomas aparecerem, Julio foi a vários médicos para tentar achar uma cura. Chegou a realizar uma cirurgia, que inicialmente recuperou parte de sua audição, mas em seis meses voltou a ficar completamente surdo.

"Depois disso, poderia ter feito um implante coclear, mas você escuta um som metálico. Ouve muito mal. Por isso preferi não fazer", afirmou.

O ex-atacante atendeu a reportagem em sua casa, na zona Sul de São Paulo. Com facilidade para fazer a leitura labial, Julio não teve dificuldade em entender as perguntas e respondeu a tudo com naturalidade.

Extrovertido e bastante independente, o Julio César de hoje, no entanto, é uma figura bem diferente do ex-atleta que começou a sofrer com os problemas de surdez.

Chocado com a nova realidade, ele entrou em depressão. A angústia de passar por vários médicos e ser submetido a uma bateria de exames só aumentou a incerteza em relação ao futuro. Inicialmente ele se afastou das pessoas, mas, após desenvolver a habilidade de ler lábios, aceitou a sua nova condição.

O diagnóstico que mudaria a sua vida veio com a ajuda de um velho conhecido. Joaquim Grava, médico do Corinthians e seu padrinho de casamento. Ele o indicou ao doutor Antonio Douglas Menon, que, após avaliar os exames, disse que Julio ficaria surdo.

"Foi muito complicado porque aí entra o processo de aceitação. Ser visto como deficiente, a vaidade, o orgulho, o medo de não conseguir se comunicar normalmente", diz.

Apesar de só ter sido descoberta em sua vida adulta, a doença reflete um problema que a mãe de Julio César teve ainda na gravidez. Com falta de cálcio, ela teve de tomar um suplemento da substância. O efeito colateral da medicação foi a calcificação que levou o ex-jogador a ficar surdo.

"O médico sugeriu que ela fizesse o aborto, mas ela não seguiu esse conselho. Ainda bem", brinca Julio, em sua versão bem humorada.

Foi por meio do esporte que Julio César encontrou um novo sentido para a sua vida. Ele dava aulas de futebol para crianças ouvintes há três anos quando, em 2004, surgiu o convite da Secretaria de Esportes da Prefeitura de São Paulo para montar uma escolinha para surdos.

"Após uma reunião com vários ex-jogadores que davam aula na prefeitura, a Nadia [Campeão, secretária do governo Marta Suplicy] e o seu secretário me pediram para criar uma escolinha para surdos baseado na minha experiência. Ali começou tudo."

No projeto Educação Integral do Surdo por Meio do Esporte, Julio usa os quatro esportes mais ensinados nas escolas (basquete, handebol, futebol e vôlei) para desenvolver aspectos físicos, psicológicos e sociais de crianças com deficiência auditiva.

"Surdo recebe informação pela visão. Ao invés de usar apitos, usava coletes e girava para chamar a atenção. As crianças começam a correr olhando a bola e o juiz para ver as marcações. Isso melhora a visão periférica deles e ajuda em situações do dia a dia."

Com liberdade para incrementar o projeto, ele tomou a iniciativa de incluir ainda aulas de capoeira e de dança.

"Como era um trabalho nunca antes feito, eu fazia muitas experiências. Nas aulas de dança, eu virava a caixa de som para o chão. As crianças ficavam descalças e sentiam a vibração. Fiz várias coreografias para eles", conta Julio.

MÚSICA

Nesse meio tempo, o ex-jogador se reaproximou da música. Nas palestras, o violão - que ele aprendeu a tocar ainda quando jogava- deu lugar ao piano, instrumento que passou a ser objeto de estudo e treino. Desde então, Julio já compôs duas sinfonias.

Entre as músicas que mais gosta de tocar ao piano estão clássicos de Tom Jobim, como "Eu sei que vou te amar", temas de filmes famosos, como "Em algum lugar do passado", e até obras clássicas, como as de Beethoven. Tudo sem escutar uma nota sequer.

Da época de jogador, ele guarda lembranças. Como da vez que foi com o atacante Casagrande para o primeiro Rock in Rio, em 1985.

"Eu dividia o quarto da concentração com o Casão. Éramos os jovens do elenco", diz Julio César, que fez parte do elenco bicampeão paulista em 1982 e 1983 com jogadores como Sócrates, Zenon, Eduardo, Wladimir e Biro Biro.

Mas é falando de um veterano, que foi campeão do mundo com a seleção brasileira na Copa de 1970, que Julio tece os maiores elogios e agradecimentos.

"Quando eu entrava para jogar na ponta direita, o Zé Maria atuava pelo meu lado e dava muita força. Falava para eu ir para cima e ajudava com dicas. O Zé passava toda a segurança que eu precisava. É uma figura incrível e de quem eu gosto muito até hoje", recordou. 


Fonte: Diario de Cuiabá

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